Uma mulher, sozinha numa sala pouco iluminada, desembrulha um presente.

 

E ela vai desembrulhando o presente com que há muito sonhava e que sempre quis, o Hoje, que não é mais do que a soma do ontem e do amanhã. Uma espécie de livro da sua vida.

Desembrulhando, vai lendo em voz alta, sem medo das palavras, expressões, exageros, insultos e elogios que até aos seus 30 anos de vida a prendiam na imaturidade do seu ser ou na pouca vontade de ingressar na tão aborrecida forma de viver e de encarar a vida, essa dos adultos. Desembrulha, sorrindo e chorando, sem bem perceber o que sente mas com todo o sentir que faz a pele arrepiar e as sobrancelhas franzir. Rasga o papel que até hoje a cobria em forma de “é melhor não falar porque pensam que não sei o que digo” e transforma-o em pequenos pedaços. Cada um que fica nas suas mãos tem uma estória que às vezes começa pelo meio e termina no princípio, passando pelo fim. Outras vezes é como deve ser, pela ordem certa. Mas a vida não segue ordens nem regras. É o que é independentemente de o ser na sua ordem. Acontece.
Num pedaço lembra-se da mãe, noutro dos passeios no jardim, noutro do Natal, noutro da alegria e força de viver que tanto a caracterizavam e de que tanto se orgulhava com aquele sorriso que só quem ainda sonha pode ter. Estórias reais que a fazem hoje tal e qual ela própria. Estórias em pedaços como todos temos, cada um com a sua forma. A pouca luz traz-lhe a inspiração despida de vergonha e preconceitos do silêncio que a escuta e por entre as sombras imaginárias solta os seus sentimentos em palavras. É uma forma diferente de estar só.
Foi um dia preenchido de alegria e emoção. O único dia do ano em que todos, não só por querer mas por dever, se lembram dela. Os chegados, os afastados, os amigos e até os inimigos. Um dia que conta muitas estórias que não se vêm e que só quem a consegue ver no escuro sabe o quanto gosto lhe dá desembrulhar e rasgar a vida aos pedaços, descobrindo o presente que o hoje tem para lhe oferecer.

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