O Underground que deu luz ao Imaviz

ScreenHunter_15 Jun. 18 19.12

Há um novo mundo underground no coração da cidade de Lisboa. Quem entra não se apercebe, mas descendo à cave é impossível ficar indiferente. Cuecas de homem tigresa, plumas cor-de-rosa, Nossas Senhoras pintadas à mão e uma marquesa pronta a tatuar, anunciam a presença de uma comunidade alternativa nunca antes vista por aqui.

Os visitantes, são na maioria góticos, metaleiros ou amantes do alternativo. O abandonado Centro Comercial Imaviz tem novas caras, um novo estilo e um público único e é agora conhecido como Imaviz Underground.

O Centro Comercial Imaviz, inaugurado em 1975, situado numa das zonas mais caras da cidade de Lisboa, estava caracterizado até à bem pouco tempo por lojas fechadas, papéis brancos nas janelas e ausência de visitantes. A falta de uma gestão forte e o consenso para uma renovação do Centro entre os vários proprietários, aliados a uma enorme vontade empreendedora de três amigos, fez emergir o Imaviz Underground, que promete ressuscitar um dos centros comerciais mais antigos de Lisboa.
Os negócios de nicho são o futuro, afirma Luis Lamelas, empresário, músico e dono da loja de discos do centro Comercial Imaviz. Está na indústria há mais de 20 anos e é o grande mentor do projecto Imaviz Underground. Os negócios que fazem parte deste projecto destinam-se a uma comunidade especifica, os góticos metaleiros. Neste momento há 11 lojas abertas, todas do mesmo proprietário, mas o objectivo é atrair mais empreendedores, de forma a diversificar a oferta. São já poucas as lojas originais e a comunidade está cada vez a ganhar mais espaço, prevendo a abertura para breve de novas lojas no Centro.

A necessidade aguça o engenho e a crise de uns pode ser uma oportunidade de outros. Foi neste contexto que surgiu a ideia de três amigos, que já se conheciam há muitos anos, cada qual com o seu negócio, de se juntarem e serem mais fortes, criando uma espécie de comunidade de lojistas direcionada para um público-alvo especifico. Algo parecido com o que existiu no Centro Comercial Portugália, nos anos de 1990. “O meu amigo Miguel tomou conta da discoteca Metrópolis, antigo Whispers, e desde aí que pensávamos que seria bom pegarmos nisto e tentar dinamizar.” Com um bom plano de negócio e alguns meses de negociações, conseguiram fechar o contrato com o proprietário.

Conflito entre proprietários conduziu ao abandono
A Albermar, empresa dona das 11, lojas é apenas um dos cerca de dez proprietários do CC Imaviz, que durante muitos anos nunca conseguiram chegar a acordo em relação à definição de uma estratégia para a manutenção do centro. São pessoas que durante muitos anos lucraram muitos com os seus negócios, mas aquando do levantamento de necessidades de reabilitação, preferiram ignorar por completo os mesmos, acabando por deixar degradar o Centro, afirma uma das proprietárias de lojas do Centro.
Foi a partir de 2005 que a situação piorou, quando as necessidades de investimento em manutenção começaram a ser evidentes, nomeadamente ao nível da pintura, limpeza e renovação de materiais. No entanto, após inúmeras reuniões e negociações entre os proprietários, não se chegou a um acordo para avançar com as obras por falta de vontade e de capital de alguns. O centro deixou de ter condições para operar, o que levou à redução inevitável do número visitantes. A abertura de novos centros comerciais novos e mais modernos na zona, como o Atrium Saldanha, Saldanha Residence e Picoas Plaza, veio agravar ainda mais esta situação.

Empreendedores alternativos
Aqui realizam-se festas temáticas, exibições de curtas-metragens e exposições. Algumas festas são patrocinadas pelo Rockline Tribe, empresa de Zuhler, mais conhecido como Izzy. Um empresário de 31 anos, que também é DJ e está em negociações para abertura de uma loja de streetwear no Imaviz. Foi ele quem trouxe os famosos queques do Sex and the city para Portugal e é no centro que tem o seu escritório. “A Rockline Tribe já faz parte do projecto e é responsável por 500 clientes em noites de festa”, afirma Izzy. O público é muito específico e por isso muito fiel. “Somos como um negócio gourmet”, comenta orgulhoso o mentor do projecto apoiado no balcão da discografia ao som de metal pesado. Existem discos que antes de serem lançados já estão todos vendidos e o preço pode chegar aos 150 euros por disco. “Há discos que só nós é que temos e por isso os clientes já sabem onde comprar”, afirma Luis Lamelas.

Três mil fãs em quatro meses
Os clientes fiéis asseguram grande parte das vendas, mas a comunidade quer afirmar-se e trazer todo o público adepto do metal, gótico e alternativo no que respeita a música, roupa e adereços, a conhecer o Imaviz Underground. A médio prazo pretendem fazer algumas obras de recuperação do espaço. Com quatro meses de existência e já quase três mil fãs no Facebook, é fácil perceber que a comunidade não está a passar despercebida.

Podiam estar situados no Bairro Alto, mas é aqui, bem próximo da estação de metro de Picoas da linha amarela, que Luis Lamelas e os amigos se decidiram instalar. “Estamos no centro da cidade, o acesso é fácil e aqui sinto-me em casa. A loja onde estou era uma loja de bonecos. Lembro-me quando era pequeno de vir aqui comprar jogos de computador para o Spectrum”, recorda Luis.
O comunidade é autónoma financeiramente e orgulha-se de estar a reabilitar não só o centro comercial mas o também o bairro de São Sebastião da Pedreira. “A nossa contribuição para a reabilitação do bairro e para os seus habitantes é dar vida a uma zona que aos fins-de-semana mais parece o “walking dead”, a conhecida série de terror do canal de TV Fox, sorri o mentor da comunidade.

Um futuro sem chão
Às lojas de grande renome para o público metaleiro como a Clockworkstore, Darkdoll, MongorHead Comics e Glam-O-Rama, junta-se agora um cabeleireiro e uma loja de produtos biológicos. Na Clockworkstore e na Dark Doll é possível comprar roupa, adereços, botas e bonés com um estilo alternativo onde predominam as caveiras. Esta última veste o público feminino gótico dos pés à cabeça, desde roupa e adereços com caveiras e morcegos até às botas pretas de fivelas, cano alto e sola grossa. A MongorHead é a visita obrigatória para os amantes de BD e a Glam-O-Rama para os colecionadores de discos.“O centro e a comunidade mudam todos os dias. É um work in progress”, comenta Luis Lamelas.

Não está fora de hipótese que um forte grupo empresarial venha a mostrar interesse em adquirir o espaço na sua totalidade, mas para Luis Lamelas a viabilidade de tal acontecer é muito reduzida, não só pelos conflitos existentes entre os proprietários como também pela necessidade de rescisão de todos os contratos de aluguer, na sua maioria de dois anos, com as lojistas actuais da centro.
Os proprietários afirmam estar satisfeitos com a reabilitação do centro, mas a falta de gestão, muito dinheiro perdido e as rendas baixas, fazem com que muitas vezes o desejo seja vender e abandonar as suas responsabilidades.

“Entre 2000 e 2005 o meu negócio foi bastante rentável, mas a partir daí deixaram de existir condições básicas por falta de manutenção, nomeadamente em relação à limpeza do centro, o que fez com que os clientes deixassem de nos visitar. Eu própria não ía ao WC do Centro”, comenta uma proprietária anónima de uma das lojas do centro.

“Se os proprietários acordassem entre si um montante de capital para investir na manutenção do centro talvez o famoso Imaviz nunca tivesse ficado ao abandono”, explica a proprietária de 55 anos. No entanto, algumas oportunidades vão surgindo. Por exemplo, a empresa que detém as 11 lojas adquiriu-as por um preço muito baixo e agora rentabiliza o investimento alugando à comunidade. A proprietária anónima de uma das lojas do centro afirma viver atormentada com o facto de não haver capacidade de investimento para manutenção e conservação, quer dos proprietários quer do condominio. “Qualquer dia há um problema e os proprietários é que têm de se responsabilizar”, comenta.

O futuro é incerto, mas para Luis Lamelas a vida é um risco e se pensarmos muito não andamos para a frente. Afinal, durante sete anos o centro esteve praticamente ao abandono e finalmente há uma luz de esperança a renascer. Curiosamente do lado menos iluminado da sociedade, o underground.

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